{"id":497,"date":"2020-02-20T23:06:41","date_gmt":"2020-02-20T23:06:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.accaobiblica.pt\/lisboa\/?p=497"},"modified":"2020-02-20T23:06:57","modified_gmt":"2020-02-20T23:06:57","slug":"eutanasia-cuidar-nao-matar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.accaobiblica.pt\/lisboa\/eutanasia-cuidar-nao-matar\/","title":{"rendered":"Eutan\u00e1sia: cuidar, n\u00e3o matar"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Paulo Pedro Luvumba<\/em><\/strong>, <em>fevereiro 2020<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estamos aqui porque queremos um Estado que n\u00e3o mata, cuida. Estamos aqui porque queremos continuar a fazer parte e queremos continuar a colaborar na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade que cuida dos seus que est\u00e3o em sofrimento. A sociedade que n\u00e3o mata, cuida, \u00e9 a sociedade da Paquita, da Marta e do Silvestre.<\/p>\n<p>Na Paquita, entre muitas coisas, marcava-nos a sua simplicidade, a sua consist\u00eancia, a sua forma de acolher e de se importar com os outros. Por ser humana, tinha as suas limita\u00e7\u00f5es, as suas imperfei\u00e7\u00f5es, como o medo ou a inseguran\u00e7a. O seu \u00faltimo ano de vida foi marcado pelo sofrimento, que resultava de uma doen\u00e7a sem cura, que limitava, roubava, incapacitava, de forma progressiva. O bem-estar cedeu o lugar \u00e0 dor. O sofrimento era presen\u00e7a constante, de dia e de noite. A sociedade que n\u00e3o mata, cuida, \u00e9 a sociedade do S\u00e9rgio, do T\u00f3-Z\u00e9 e da Fil\u00f3. Eles s\u00e3o os tr\u00eas filhos da Paquita. De maneiras distintas, todos eles estiveram ao lado da m\u00e3e; todos eles acompanharam a m\u00e3e; todos eles cuidaram da m\u00e3e. A sociedade que cuida \u00e9 tanto da Paquita, a m\u00e3e cuidada, como \u00e9 do S\u00e9rgio, do T\u00f3-Z\u00e9 e da Filomena e dos seus respectivos c\u00f4njuges e filhos, que juntos, estiveram l\u00e1, cuidando.<\/p>\n<p>A minha amiga Fil\u00f3, a quem, por vezes, eu chamo professora Filomena, foi mais do que cuidadora informal. Continuou a ser filha e foi enfermeira, foi auxiliar, foi socorrista, foi psic\u00f3loga, foi orientadora espiritual, foi ouvinte, foi companheira na dor. A Paquita morreu aos 86 anos, numa unidade de cuidados paliativos de um hospital em Lisboa.&nbsp; Morreu de m\u00e3os dadas com um dos seus filhos. E eu, que tenho a honra de ser chamado amigo por estas pessoas, juntamente com outros, estivemos presentes na retaguarda deste cuidado.<\/p>\n<p>Uma sociedade que cuida \u00e9 a da Marta, que morreu aos 82 anos, na cama de um hospital em Lisboa, n\u00e3o devido a sua doen\u00e7a incur\u00e1vel, implac\u00e1vel, impiedosa, mas de uma infec\u00e7\u00e3o hospitalar. Sim, \u00e9 verdade: Nem todos os condenados \u00e0 morte por doen\u00e7as incur\u00e1veis, ou mesmo terminais, acabam por morrer devido a essa doen\u00e7a. Nos seus \u00faltimos anos, meses, dias, horas, a Marta teve ao seu lado familiares, amigos, m\u00e9dicos, enfermeiros, auxiliares. Esta Marta tinha por sobrenome Joaquim, tal como eu. Dela falo menos, por ser a minha av\u00f3 materna. Ela morreu no meio da despedida final com a filha, assistida por m\u00e9dicos, que n\u00e3o provocaram nem apressaram a sua morte. Morreu numa sociedade que n\u00e3o mata, cuida.<\/p>\n<p>Tal como a Paquita, a Marta tamb\u00e9m perdeu autonomia \u2013 aquela de que falam, quando advogam a necessidade da legaliza\u00e7\u00e3o da Eutan\u00e1sia e do Suic\u00eddio Assistido. Mas, pe\u00e7o que pensemos na autonomia como a capacidade da pessoa fazer livremente escolhas morais.<\/p>\n<p>Por estar em causa o exerc\u00edcio da individualidade dentro da viabilidade da vida em sociedade, a livre escolha moral est\u00e1 ligada ao bom e mau, ao certo e errado, n\u00e3o apenas para mim, nem apenas para alguns meus, mas para o todo. Na vida em sociedade assim constru\u00edda, a liberdade nunca foi um valor isolado e absoluto.&nbsp;As sociedades progrediram e beneficiaram melhor os seus e o seu todo quando a liberdade era estreita e firmemente ligada com a <strong>RESPONSABILIDADE<\/strong>. As sociedades progrediram e beneficiaram melhor os seus e o seu todo quando a liberdade era estreita e firmemente ligada com o <strong>RESPEITO<\/strong>. As sociedades progrediram e beneficiaram melhor os seus e o seu todo quando a liberdade era estreita e firmemente ligada com o <strong>ALTRU\u00cdSMO<\/strong>. Sim, o que queremos continuar a construir \u00e9 uma sociedade vi\u00e1vel para a vida em conjunto; por isso, vinculamos firme e estreitamente a liberdade e a responsabilidade, a liberdade e o respeito, a liberdade e o altru\u00edsmo. Fazemo-lo por sabermos que os caminhos da liberdade individual quase absoluta, que pode ser apenas um individualismo ego\u00edsta, levam-nos, de forma progressiva, mas efectiva, para uma degrada\u00e7\u00e3o e, por fim, destrui\u00e7\u00e3o colectiva. \u00c9 isto que pretendemos evitar. \u00c9 isso que n\u00e3o queremos.<\/p>\n<p>Na vida em sociedade, por raz\u00f5es \u00f3bvias \u2013 t\u00e3o evidentes que dispensam explica\u00e7\u00f5es, a vida humana, cada uma delas e todas elas, sem excep\u00e7\u00e3o, a vida, dizia eu, \u00e9 o bem mais precioso.<\/p>\n<p>O que \u00e9 o exerc\u00edcio da liberdade com responsabilidade, respeito e altru\u00edsmo, quando em causa est\u00e1 o sofrimento indiz\u00edvel e intoler\u00e1vel, seja do pr\u00f3prio ou seja do outro?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 a promo\u00e7\u00e3o de cultura de provocar e antecipar a morte de quem est\u00e1 em sofrimento? Queremos mesmo que a classe dos profissionais de sa\u00fade, cuidadores por voca\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o, viva uma tal transforma\u00e7\u00e3o em que, para al\u00e9m de perseguirem como objectivos o tratar e contribuir para a cura e o cuidar e acompanhar, quando n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a cura, passem a visar tamb\u00e9m, como um dos objectivos a concretizar, o provocar e apressar a morte dos seus pacientes que a pediram? Queremos mesmo perturbar a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre os profissionais de sa\u00fade, os utentes e seus familiares, abrindo espa\u00e7o para a d\u00favida sobre ac\u00e7\u00f5es e inten\u00e7\u00f5es, e as verdadeiras causas e motiva\u00e7\u00f5es de determinadas mortes em hospital? Queremos mesmo que as pessoas em sofrimento sintam, ainda mais, que s\u00e3o um fardo para os outros, e que ajudariam se n\u00e3o continuassem por c\u00e1 mais tempo?<\/p>\n<p>Com os pa\u00edses que j\u00e1 legislaram no sentido que n\u00f3s n\u00e3o queremos, \u00e9 poss\u00edvel aprender que, uma vez estabelecida a cultura da morte do outro provocada e antecipada, o exerc\u00edcio da decis\u00e3o livre e aut\u00f3noma de alguns, sob a capa da busca de uma morte digna, descamba&nbsp;na priva\u00e7\u00e3o da liberdade e autonomia de outros, os mais fracos, os mais desamparados, os mais\u2026, os mais vulner\u00e1veis \u2013 os mais carenciados de cuidados.<br \/>\nA legisla\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m d\u00e1 sinal do tipo de cultura que queremos promover. E n\u00f3s queremos continuar a promo\u00e7\u00e3o de uma cultura de acompanhamento, cuidado e al\u00edvio. A sociedade que cuida \u00e9 a sociedade que avan\u00e7ou dos cuidados de sa\u00fade generalizados, para conquistas t\u00e3o importantes como, por exemplo, a Consulta da Dor, a Hospitaliza\u00e7\u00e3o Domiciliar, os Cuidados Continuados, o estatuto do Cuidador Informal, os Cuidados Paliativos. Queremos legisla\u00e7\u00e3o neste sentido. Queremos pol\u00edticas neste sentido. Queremos investimento neste sentido. Essa \u00e9 a sociedade que queremos, que cuida, n\u00e3o mata.<\/p>\n<p>A sociedade que cuida em vez de matar \u00e9 tanto da Paquita e da Marta, como \u00e9 tamb\u00e9m do Silvestre. Aos 36 anos de idade o Silvestre foi confrontado com o diagn\u00f3stico de uma doen\u00e7a grave, no contexto da qual, conforme ele compreendeu do que lhe foi dito, se seguiria uma progress\u00e3o destrutiva, em que de 200 escapava 1, e mesmo assim com o risco de ficar em estado vegetativo. O seu sofrimento deu lugar ao desespero. Apressar e provocar a morte, que era vista como inevit\u00e1vel, tornou-se um desejo recorrente, que ele comunicou aos m\u00e9dicos, em diferentes ocasi\u00f5es. Hoje passaram-se 14 anos, desde o diagn\u00f3stico e do progn\u00f3stico. Sim, o Silvestre est\u00e1 vivo. Conversei com ele ao telefone ainda ontem. Tem 50 anos e sente-se realizado e feliz, mesmo com as defici\u00eancias com que ficou e com as importantes limita\u00e7\u00f5es com que vive. \u00c9 aut\u00f3nomo o suficiente para conduzir o seu pr\u00f3prio carro adaptado, coisa que um dos m\u00e9dicos disse que ele nunca conseguiria alcan\u00e7ar. Acima de tudo, o Silvestre est\u00e1 grato por n\u00e3o terem sido atendidos os seus pedidos, repetidos, para lhe anteciparem e causarem a morte. Ele reconhece que al\u00e9m da convic\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos, que viam um mal nesse acto, foi importante haver uma lei que impedia que o seu pedido fosse atendido.<\/p>\n<p>Quando o que est\u00e1 em causa \u00e9 a vida em sociedade, a constru\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o comum vi\u00e1vel para todos, e n\u00e3o apenas para mim, nem apenas para ti, nem apenas para alguns especiais, as leis que essa sociedade tem, ou n\u00e3o tem, contam, e muito. Todos sabemos que as leis n\u00e3o capacitam as pessoas para cuidarem, porque a legisla\u00e7\u00e3o n\u00e3o promove o amor. A pessoa promove o amor. A fam\u00edlia promove o amor. A comunidade promove o amor. Mas as leis d\u00e3o um importante sinal, pois, ao apontarem para padr\u00f5es, denotam aquilo que n\u00f3s, como sociedade, entendemos ser o bom, o correcto, o desej\u00e1vel. N\u00f3s entendemos que o bom \u00e9 cuidar de quem est\u00e1 em sofrimento, n\u00e3o \u00e9 matar. N\u00f3s entendemos que o correcto \u00e9 cuidar de quem est\u00e1 em sofrimento, n\u00e3o \u00e9 matar. N\u00f3s entendemos que o desej\u00e1vel \u00e9 cuidar de quem est\u00e1 em sofrimento, n\u00e3o \u00e9 causar e apressar a sua morte, ainda que a pessoa o pe\u00e7a. \u00c9 por isso que entendemos que a lei que agora temos, sobre a Eutan\u00e1sia e o chamado Suic\u00eddio Assistido, deve ser mantida como est\u00e1. Fazer esta op\u00e7\u00e3o \u00e9 continuar a construir uma sociedade que n\u00e3o mata, cuida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Pedro Luvumba, fevereiro 2020 &nbsp; Estamos aqui porque queremos um Estado que n\u00e3o mata, cuida. Estamos aqui porque queremos continuar a fazer parte e queremos continuar a colaborar na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade que cuida dos seus que est\u00e3o em sofrimento. 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